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  • Matheus Pereira Dias

Da porta da cozinha para a universidade


Biblioteca do Colégio Estadual de Igaporã. Foto: Ana Carolina Erodite
 

Caro alguém,

Sendo extremamente sincero não sei por onde começar, pois mesmo um pedaço pequeno de quem somos se configura em universos cheios de possibilidades e de ações impensáveis.

A escrita e a leitura nascem inesperadamente em mim. Como minha mãe, por muito tempo, foi empregada doméstica na casa de uma professora e de um advogado da minha cidade (Igaporã), era comum eu acompanhá-la e, enquanto ela limpava aquele labirinto de cômodos, um em especial me chamava a atenção, a biblioteca, que ficava exatamente no segundo andar, ao final de um longo corredor. Era ali que meus poderes e aventuras ganhavam vida. Aquele lugar era como gravidade me puxando ao seu encontro, me levando para o País das Maravilhas, Hogwarts, ao Distrito 12 e até a uma simples bolsa amarela da menina Raquel.

Me via perdido em uma conjunção de letras, palavras e frases, que se transformavam em constelações mutáveis. Nesse contexto, comecei a criar o meu próprio, singelo e pequeno, sistema estelar, escrevendo primeiramente em alguns papéis enfeitados que minha avó materna guardava na gaveta da máquina de costurar, os mesmos que posteriormente se transformaram em alguns cadernos, terra onde histórias banais e fantásticas coexistiam. É naqueles escritos que boa parte de quem eu já fui hoje descansa, me fazendo visitas sempre que necessário. Fico nostálgico e até um pouco saudoso com a época em que era mais fácil “compreender” o mundo.

Ornamentação do evento em 2019, que teve a expressão de três categorias artísticas, sendo elas a literatura, a música e o preservamento histórico por meio da arte visual. Foto: Facebook
Ornamentação do evento em 2019, que teve a expressão de três categorias artísticas, sendo elas a literatura, a música e a preservação histórica por meio da arte visual. Foto: Facebook

Entretanto, todo dia ensolarado precisa ser abraçado pela noite, para que o sol radiante possa nascer de novo. Durante algum tempo da minha adolescência, eu simplesmente parei de ler e escrever, seria estúpida inocência atribuir o sentido literal da sentença, pois eu ainda estudava conteúdo programático escolar, interagia nas redes sociais com amigos, via notícias na mídia, mas histórias fantásticas não despertavam o mesmo tesão que antes, pois não me via representado, não sentia conexões fortes o suficiente. Segundo Tim Harford, um dos autores citados em Escrever na Universidade - Fundamentos, dos linguistas Francisco Eduardo Vieira e Carlos Alberto Faraco (2019), a origem da escrita está diretamente ligada à necessidade econômica, sendo envolvida primeiramente no processo de negociação, planejamento e tributação, enquanto hoje em dia ela é muito utilizada em um processo de dominação, criando esse sistema em que vivemos. Depois de anos, e agora na universidade, reflito que talvez esse tenha sido o motivo da minha desanimação, não de forma consciente como atualmente.

O fim do meu hiato se dá quando a minha antiga escola anuncia uma competição literária nomeada de Tempos de Artes Literárias (TAL) e todos competidores tinham propensão a falar de flores, paixões, beleza e o tempo, esquecendo do caos que havia em seu redor (não me leve a mal, sou um eterno apaixonado por clichês), mas aquilo me causou uma angústia, quase me forçando a escrever uma poesia intitulada “Ecos de uma pátria Inversa”, que jogava na roda temas polêmicos e palavras que foram sussurradas em alto e bom som: “homossexualidade, estupro e nepotismo”, verbos que rasgaram o piso intocado do pátio daquele colégio de bons costumes interioranos. O mais impressionante, e até irônico, é que ganhei a etapa interna e fiquei em segundo lugar na etapa regional daquele ano.

Hoje em dia, entendo que o ato de escrever e ler, num país onde há um grau de desigualdade imenso, é um ato político, não uma política oligárquica que se faz presente no interior, onde famílias com sobrenomes nobres fazem desta terra quase um faroeste em tempos eleitoreiros somente para satisfazer e manter o seu status social.

A política que eu descrevo é uma forma de resistência, forjada numa espécie de marginalidade que grande parte dos meus é jogada, porque só tive contato com uma biblioteca grande, cheia de livros de diversas categorias e gêneros literários pela porta da cozinha, escondido atrás da minha mãe, aproveitando momentos oportunos de distração dos donos daqueles livros.

Faço então um breve paralelo com algumas ideias do educador Paulo Freire, em A importância do ato de ler (1989), quando ele afirma que já lemos o mundo antes da palavra e quando unimos a leitura da palavra com a do mundo, então é possível abranger ainda mais a participação de pessoas iguais a mim em espaços de poder e debate, pois as palavras sempre estarão relacionadas a espaços de poder que são propositadamente mantidos longe da minha classe, que é impedida de ler e perceber seu mundo e, assim, reescrevê-lo por meio da palavra. Mas eu fiz, eu estou fazendo agora.

Leitura e escrita ativas e conscientes são ferramentas imprescindíveis para que este país se torne um lar de verdade para quem mora aqui. Sei que não será fácil mudar a realidade, mas espero que as lutas sejam enfrentadas e que possamos, de verdade, viver dias melhores.

Tenho a sensação que estou me estendendo de forma exagerada já. Até logo e com os meus sinceros cumprimentos, Matheus.

Santa Maria da Vitória, 04 de maio de 2022


 

Matheus Pereira Dias, discente do curso de Publicidade e Propaganda da UFOB/Samavi.





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