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  • Flávio Dantas Martins

Uma nota para o papel do rio São Francisco na cultura brasileira

INSPIRADOR, O VELHO CHICO É CANTADO, POETIZADO, DECLAMADO, CENÁRIO TELEVISIVO E VIDA PARA MILHÕES QUE TÊM COM ELE UMA RELAÇÃO SAGRADA.


Ilustração: montagem com arte de Clécia.


 

Estava eu mexendo numa nota de rodapé da minha tese de doutorado intitulada “O Rio São Francisco na história”, para explicar o que era o poema de autor desconhecido “ABC do São Francisco”, quando o serviço de streaming de música trouxe a voz de Diana Pequeno cantando “Águas do Sertão (Fio d’água)” e a sensação que tive pode ser descrita como “uma rajada, um desembesto, um desadoro, um desabalo. Não tenho palavras”, tal qual o diplomata e escritor mineiro Guimarães Rosa sentiu na leitura da carta do alfaiate e escritor baiano Osório Alves de Castro. Explico.

O “ABC do São Francisco” não é ABC, daqueles que cada estrofe começa com uma letra do alfabeto, mas uma cantiga de remeiros onde cada verso trás o nome de um porto com uma qualificação. “Juazeiro dá lordeza,/ Sento-Sé dá fidalguia,/ Casa-Nova dá pobreza,/ Remanso dá valentia”. Cantiga de despedida e de saudade, de comparação, fazia parte de um gênero de versos sobre as antigas aldeias do Velho Chico. A que eu transcrevi acima possui o tom laudatório de outras também transcritas nos anos 1950 pelo mineiro João Gonçalves de Sousa, poeta de Pedras de Maria da Cruz, como outra também por ele registrada que diz “Vou-me embora desta terra,/ Eu aqui não volto mais;/ Adeus, linda Pirapora,/ Adeus, Campinas Gerais”. Eu conheci primeiro a versão mais longa do ABC que li no “Canabrava do Gonçalo”, livro de história dos advogados baianos Osvaldo Alencar Rocha e Edimário Oliveira Machado, mas já conhecia outra, a que Wilson Lins, escritor de Pilão Arcado, enxertou no seu ensaio “Médio São Francisco”, antes de usar um verso para intitular seu romance, Remanso da valentia, da trilogia dos coronéis. O antropólogo mineiro Zanoni Neves estudou a variedade de versões no seu livro “Navegantes da integração”. Ele destacou que os remeiros, ou moços de barca, poderiam mudar os versos para, como forma de resistência através do humor diante de condições de trabalho muitas vezes análogas à escravidão, ao invés de louvar, ridicularizar as velhas elites das barrancas, particularmente atingidas em seu zeloso civismo. Os trabalhadores negros das barcas desvelavam o perverso mundo da “escravatura das agregações” do pós-abolição na certeira expressão de Osório.


Assim, “Barra só dá barão” virava, na verve satírica dos remeiros, “Barra só dá ladrão”.

Talvez para além da resistência dos subalternos, a variação correspondesse à mudança do andamento da canção. Ocorre que quando subiam os rios, com varas mutilando seus corpos, os moços das barcas ritmavam o compasso das varas com cantigas mais pausadas, mas quando desciam ajudados pelas águas, com remos, aceleravam o andamento. O embalo mais animado poderia dar lugar às brincadeiras, enquanto a sofrida subida carreira acima podia deixar tudo mais solene, o que não impedia que também a dor alimentasse a sátira. Essa diferença de andamento é conhecida na Ilha do Massangano, entre Petrolina e Juazeiro, e se nomeia a mais lenta como toada e a mais rápida como batuque. Shirley Pimentel nos ensina em sua dissertação de mestrado que dona Ana e dona Sisaltina, da comunidade quilombola de Barreiro Grande, em Sítio do Mato, chamam a música de andamento mais lento de chula e a mais rápida de batuque ou samba. Mas voltemos ao desembesto.

Discos que embalaram a poética músical sobre o Velho Chico.

O começo de “Águas do Sertão” na voz de Diana Pequeno já causa desabalo suficiente, mas achei demais a coincidência do momento em que eu escrevia a nota de rodapé sobre o ABC foi quando ela cantou os versos “Nos telhados do arruado/ Feito de palha vazante/ Remanso da valentia/ Pilão Arcado na praça/ Sento Sé de nobreza/ Casa de batido chão/ de reboco e de pobreza”, senti que precisava parar. Parar e ouvir. E logo depois, busquei.

Descobri que a música foi composta por dois feirenses, Carlos Pita e Cesar Ubaldo, com Fernando Lona de Ubaitaba, aparecendo primeiro no disco solo deste, em 1977, e um ano depois foi gravada por Diana. Carlos Pita também tem um disco todo dedicado ao Rio: “Águas do São Francisco: Lendas”, de 1979. O disco de Pita pode entrar na família de outros, como o “Pirão de Peixe com Pimenta” de Sá & Guarabyra, “Fala moço” de Alcyvando Luz, “Natureza: das barrancas do São Francisco” de Pedro Sampaio ou “Carrancas”, de João Bá. Mas enquanto esses aí, uns barranqueiros e outros não, destacaram o São Francisco na capa dos álbuns, em músicas título ou em várias canções, o disco de Pita é todo dedicado ao vale. Diana Pequeno gravou em outro álbum a música “Travessei moreno”, canção de Pita inspirada no rio. Ela e “Águas do Sertão”, porém, são distintas do tom mágico das canções de “Águas do São Francisco: Lendas”, que lembram a bruma onírica do “Romance da Pedra do Reino” do paraibano Ariano Suassuna e o ciclo mágico-medieval dos folhetos de cordel brasileiros com príncipes, princesas, reinos encantados e alegorias que inspiraram o cantador catingueiro Elomar Figueira de Melo. “Águas do Sertão” é quase uma canção de protesto que podia figurar num filme do Cinema Novo, amplamente lírica, urgente, ansiosa como as águas que correm.

Essas canções e esses álbuns, documentos da nossa história cultural, testemunham o poder da geografia no imaginário do país. O rio São Francisco é um desses conceitos de forte carga identitária e emocional da cultura brasileira, comparável ao Sertão, à Amazônia, ao Nordeste, cujo uso amplo no romance, na música, na poesia, na telenovela, no audiovisual, na literatura de viagem, no documentário e no jornalismo, inclusive, infelizmente, naquele dedicado aos escândalos políticos da corrupção em torno da indústria da seca. O rio São Francisco parece facilitar audiência, recursos públicos, pois é um conceito geográfico tocante, que toca, apaixona. É “bom para pensar” o país, parafraseando Lévi-Strauss.


O rio São Francisco está na poesia de Castro Alves, abrindo a epopeia de “Os Escravos”, no “A cachoeira de Paulo Afonso”, para servir de metáfora natural da vergonhosa história do país, onde água e pedra, sucuri e touro, liberdade e escravidão se enfrentam.

Também está no “Os Sertões” de Euclides da Cunha, caldeando e unificando norte e sul do Brasil na forma étnica da sub-raça sertaneja. Em “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa, o São Francisco divide em duas a vida de Riobaldo. E suas águas permeiam “Torto Arado” de Itamar Vieira Júnior de uma ponta a outra, ora como geografia da narrativa, lugar de origem de Donana, espaço de aquilombamentos ancestrais, ora pela sugestão que o nome da fazenda onde se passa a história, Água Negra, que remete ao Negro d’água, entidade que ora tem um quê africano de Exu, e que foi interpretada pelo líder indígena Ailton Krenak como o Pai da Água, em desenho da capa do álbum “Caboclo d’água” do mineiro Tavinho Moura. Talvez por isso Ariano Suassuna, em seu livro “Dom Pantero” — uma espécie de romance/autobiografia —, por meio das palavras de Márcio Rodrigo, afirma que “O curso do Rio São Francisco exercia uma fascinação tão grande em Auro Schabino [um dos homônimos do autor] que ele decidiu eleger dois Marcos artísticos, unindo as extremidades do eixo entre Minas e o Nordeste”, o santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, Minas Gerais, e o santuário da Pedra do Reino em São José do Belmonte, Pernambuco. “Do Nordeste para Minas corre um eixo que, não por acaso, segue o curso do São Francisco — o rio da unidade nacional”. Se é tão importante na literatura, não seria diferente na música.

O São Francisco ocorre na música tradicional dos batuques, chulas e toadas, passando fortemente na música popular com Sá & Guarabyra e Geraldo Azevedo, até a música clássica, com versos fazendo referência ao Rio, em Elomar em canções como “Acalanto” — “Certa vez ouvi contar/ Que muito longe daqui/ Muito além do São Francisco, ainda pra lá” —, e na “Cantata para Alagamar” de José Alberto Kaplan e Waldemar José Solha — “Este São Francisco cresce/ E ruma lá pro Nordeste/ Crescendo que só a peste/ E no meio já está azul/ E as pontes se alargando/ e mais rio se juntando/ as margens vão se afastando/ esta enchente vai passar/ e a união vai aumentando/ pro Nordeste caminhando/ e o rio alaga o mar”. O já citado violeiro e estoriador do rio, Tavinho Moura, que escreveu livros e compôs álbuns inteiros com referências ao mesmo, destacando “Caboclo d’água” de 1991, “O aventureiro do São Francisco” de 1994 e “Maria do Matué: uma estória do Rio São Francisco” de 2007.

A grande presença do rio São Francisco no batuque, no samba chula, nas toadas, na música popular e clássica recente, evidencia um aspecto possível de se perceber em outras artes: o vale é personagem central da história da cultura brasileira.

Importante marco geográfico do sertão no período colonial quando os portugueses, acostumados a um reino minúsculo, o tinham como fronteira entre as sesmarias e os espaços tapuias, só alguns séculos mais tarde subjugados pela coroa, aparecia nas cartas jesuítas e nas relações de engenheiros de estradas reais e missionários que buscavam conquistar a alma dos indígenas. No Império, ele era importante estrada interior fluvial, objeto de debates parlamentares sobre canalizações e projetos miraculosos de irrigação e navegação, além de passagem obrigatória da maioria dos naturalistas europeus que vieram coletar plantas, animais e minerais nas bandas de cá, como Spix e Martius, Saint-Hilaire e Gardner. Como estes livros se transformaram em fontes fundamentais da construção da identidade do Estado nacional brasileiro — onde era possível ler naturalistas europeus elogiando a natureza brasileira e prescrevendo um grande futuro nacional para tão gigante conjunto natural — não tardou para que escritores brasileiros dessem destaque ao rio São Francisco. Na República, sobre ele escreveram Euclides da Cunha, João Capistrano de Abreu, João Ribeiro, Teodoro Sampaio, mas coube a Noraldino Lima e principalmente Vicente Licínio Cardoso a difusão do epíteto mais famoso, o de rio da unidade nacional. Tomado como mote de propaganda pela ditadura do Estado Novo, o rio da unidade era visto como espaço estratégico de colonização interna do interior, cujos objetivos eram a produção de energia elétrica barata para as indústrias de Recife e Salvador, a melhoria da navegação para integração do mercado interno e a irrigação para produção de alimentos baratos de modo a reduzirem os custos da mão de obra. Além disso, o São Francisco era visto pelos estrategistas do Estado Novo como a fronteira sobre a qual a “civilização brasileira”, que ainda arranhava a costa leste como caranguejo, iria avançar. Esse é o espírito das propostas de engenheiros como Geraldo Rocha, Agenor Miranda, Luís Flores de Moraes Rêgo, entre outros escritores que se dedicaram ao tema do rio.

A história do país depois disso poderia ser facilmente resumida em como a natureza e as populações camponesas, quilombolas e indígenas desse interior do país foram espoliadas para permitirem o crescimento econômico capitalista, sem justiça social ou ambiental. Foi num levante da sociedade brasileira contra essa espoliação da natureza e dos habitantes do campo que os movimentos sociais e artistas criaram o novo e mais conhecido epíteto do rio: o Velho Chico, que surgia ao mesmo tempo escrito nos relatórios dos diretores da CHESF que desalojavam centenas de milhares de pessoas de suas casas, para darem lugar a barragens e em discos e livros de poetas como Teo Azevedo, além dos já citados acima.


Os poetas e os engenheiros continuam a interpretar o rio, seja à luz do mágico de Rosa, do religioso de dom Luís Cappio ou da religião das represas do desenvolvimentismo, como as chamou o geógrafo Milton Santos.

Um dos efeitos, para os criadores artísticos, é que o São Francisco é muito inspirador, mas a grande quantidade de abordagens feitas para ele o tornam um objeto saturado de sentido. Falar do São Francisco como espaço natural é buscar a água sob séculos de camadas e mais camadas de artefatos culturais. Criar arte sobre o São Francisco pode ter o efeito facilitador de atrair pelo tema, mas pode ter a consequência crítica de monotonia, tal a quantidade de discursos construídos sobre ele. Ao fascínio, soma-se esse desafio, pois, cantado por muitos, parece difícil dizer algo novo sobre ele.

Se o Amazonas é mais conhecido e foi objeto de adoração de estrangeiros, como se pode ver nos livros do filósofo natural prussiano Alexander von Humboldt, do final do século XVIII, do escritor estadunidense John Muir no século XIX, até a animação “Up — Altas Aventuras” de 2009, do diretor estadunidense Pete Docter, o São Francisco é o grande rio do imaginário nacional, constantemente atualizado por artistas plásticos, compositores, romancistas, escritores de novela, cineastas e outros. Daí que nas águas do Jacuípe e do Paraguaçu de Carlos Pita e Cesar Ubaldo, do Rio de Contas de Fernando Lona ou do Atlântico, na Baía de Todos os Santos de Diana Pequeno é sempre possível, como é para todo brasileiro, beber das águas do São Francisco.



 

Flávio Dantas Martins, professor do Centro de Humanidades (UFOB).


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