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  • Carolina Reichert do Nascimento* e Rafael Sancho Carvalho da Silva**

Mestre Nêgo, o carranqueiro do rio Grande

ARTISTA DE BARREIRAS (BA) REINVENTA A CARRANCA AO HARMONIZAR VARIAÇÕES ESTILÍSTICAS INSPIRADAS NOS GRANDES MESTRES.


Carranca Bode


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eram necessários três gemidos da carranca para que se provocasse um sinal de alerta diante de um perigo eminente àqueles que navegavam os rios da região sanfranciscana tempos atrás, segundo anotações de Paulo Pardal (1981). Tal aviso, imaginamos nós, era um diálogo ruidoso e eloquente entre a figura de proa e o barqueiro. Era, então, esse momento que tornava a carranca uma guardiã daquele que a carregava espantando os maus auspícios existentes nos rios em que ela se fazia presente. A carranca, por sua vez, atrevida, ostentava seu mágico poderio na proa das barcas.


Em vezes, bastante decorada, em outros momentos, com traços mais simplórios, a carranca não perdeu sua imponência como uma figura que se valia de uma estética extravagante utilizada para espantar todo tipo de agouro danoso existente nas águas. Dona de um semblante grotesco - medido pelos grandes e arregalados olhos, boca entreaberta e dentes protuberantes, a carranca se fez figura identitária em boa parte dos percursos das águas volumosas dos rios que margearam o Velho Chico.


Mestre Nêgo

Ao longo dos tempos, passando por diversas transformações e entregando-se às mãos dos mais habilidosos escultores, a carranca inseriu-se em novos contextos artísticos relutando em meio a permanência da sua tradição. Perante atualizações formais, pôs a responsabilidade à artistas ribeirinhos, desejosos em mantê-la como tema pulsante, permanecendo soberana em produções artísticas desses nobres entalhadores. Sua condição para isso, temos certeza, era de que fosse preservado alguns traços estilísticos, então, recorrendo às longas madeixas escuras bem entalhadas em sulcos, mantendo seu pescoço curvilíneo e orelhas pontiagudas.


Em meio a salvaguarda desses traços, Dilson Dias de Almeida, conhecido como Mestre Nêgo, residente em Barreiras (BA), atento à importância de sua continuidade, soube trabalhar e conduzir a temática da carranca, firmando um acordo velado com ela, ao preservar as nobres e as exigentes peculiaridades que a potência plástica que uma carranca exigia. Ao conservar as características necessárias para ser instituído como um artista-carranqueiro, também, incumbiu-se da responsabilidade de requerer o título de carranqueiro do rio Grande que, ao ser outorgado pela guardiã dos barqueiros, fez jus a sua designação ao dedicar-se por todo esse tempo à feitura da carranca do rio Grande.


A partir disso, Mestre Nêgo concedeu a si a autorização da reinvenção da carranca elaborando uma comunhão notável entre variações estilísticas da peça. Sua inquietude criativa abriu espaços para a elaboração de outros estilos de carranca que se alargaram para além da abordagem da “carranca-vampiro”, denominada por Pardal (1981). Usufruindo de uma sensibilidade inerente, surgiram das mãos do escultor a carranca-bode e a carranca-leão, que são a fusão entre o tema da carranca-vampiro com representações dos animais os quais levam seu nome. Além disso, o artista reinventou uma outra dimensão da carranca, reduzindo seu tamanho e a denominando de “carranquinha”.


 

GALERIA



Além da dedicação em manter o ofício de carranqueiro do rio Grande, Mestre Nêgo explora também outros tantos temas artísticos que se relacionam com seu cotidiano de vida nos sertões. Entre eles, citamos os animais - pássaros e onças pintadas, representações bem elaboradas baseadas naquelas avistadas pelo artista na Caatinga e no Cerrado; personagens da literatura oral - como a Caipora, o Lobisomem, o Pé de boi, os quais carregam as cores dos sertões vividos pelo escultor; enquanto as imagens religiosas, possuem uma forte ênfase nas temáticas da umbanda e do catolicismo popular.


Fato é que as carrancas, mesmo tendo descido das barcas há muito tempo, passaram a habitar lares e ambientes de trabalho. De qualquer maneira, a imagem tem mantido sua função protetiva atualizada, na qual torna-se um amuleto significativo para quem quer permanecer afastado dos infortúnios. Entretanto, há quem não acredite em nada disso! Confabula - inclinando-se a mais pura ideia de que tudo não passa de crendices. Ledo engano, nossos amigos! Acreditando ou não, as carrancas estão firmadas no imaginário sanfranciscano e, mais do que nunca, com toda sua variedade estilística talhada por artistas como Mestre Nêgo, de mente inventiva e mãos engenhosas. Aliás... diante dessa descrença, nosso artista nos afirmou em uma animada prosa que “as vezes tem gente que tem que ver para crer, mas é preciso crer para ver.” (!) *|*


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REFERÊNCIAS

PARDAL, Paulo. Carrancas do São Francisco. 2ª edição. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1981.


*Carolina Reichert do Nascimento, professora de Artes da UFOB.

**Rafael Sancho Carvalho da Silva, professor de História do Brasil da UFOB.


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2 commenti


Lina de OYA
Lina de OYA
06 apr 2022

Mestre Nego faz história com suas artes maravilhoso trabalho

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sousa.cfelix
sousa.cfelix
29 ott 2021

Mestre Nego é um espetáculo

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