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  • Eumara Maciel dos Santos

Pedra Negra da Extrema: tecendo ensaios para uma educação escolar quilombola

DESCOLONIZAÇÃO: RELATOS DO PROCESSO DE PESQUISA SOBRE COMO ADAPTAR A EDUCAÇÃO FORMAL AOS CONTEXTOS DE VIDAS DOS ESTUDANTES


No caminho das águas do rio São Francisco para a Ilha das Intãs para conhecer as lavouras de lá. Foto: Shirley Pimentel


 

Em 2020, um grupo multidisciplinar de professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), campus de Barreiras, entrou em contato comigo para convidar para trabalhar no projeto de proposição de uma educação escolar quilombola em Pedra Negra da Extrema, povoado da cidade de Barra, aqui pelo oeste da Bahia, beijado pelo rio São Francisco e na altura do km 49 da BA 160. Um dos territórios mais distantes da sede, Pedra Negra da Extrema é uma comunidade remanescente de quilombo que foi reconhecida pela Fundação Palmares em 2017: um chão dos nossos. De lá, é uma das pesquisadoras, que nos levou a campo para conhecer os espaços-tempos que experienciaríamos.


Tomamos a estrada e fomos todes: uns formados em Pedagogia, em Letras, em Filosofia, em Física, em Biologia, em Matemática, em Geografia, em Engenharia dos Alimentos, tentando observar como esses conhecimentos acadêmicos poderiam ser úteis para a promoção de uma educação formal que fizesse sentido naquele contexto, partindo dele, das identidades ali pulsantes, potentes.


Chegamos. A recepção foi calorosa: afeto, conversa e comida. Alimentados contra tantas fomes, começávamos a ter o contato com epistemologias ancestrais ao sentir a necessidade de sentar para ouvir às narrativas atentamente ou para ir até a roça perfazer o caminho diário de um saber-fazer letrado e sofisticado que os sujeitos apreenderam com a natureza; as leituras que fazem dela… como se comunicam e como alimentam uma cadeia de transmissão desses conhecimentos negro-ribeirinhos.



A tessitura da rede de pesca pelas palavras e mãos de Seu Claudim; e Seu Nezim a nos contar performaticamente sobre a Pedra Negra. Fotos: Shirley Pimentel e Naianny Almeida Pacheco


Um encontro foi organizado para solicitar a anuência das pessoas para a realização da pesquisa. Num exercício de sentido comunitário, fomos recebidos por adultos, idosos e crianças, que se pronunciaram favoráveis à proposta e animados com ela. Apresentamos o projeto, desde a perspectiva da contribuição da oralidade como uma das formas legítimas de ir à fonte de histórias que constituem a comunidade, suas imagens e imaginários contidos nas narrativas cotidianas, passando pela lucubração da sofisticada etnomatemática que orienta o plantio das manivas com 20 cm separadas por um metro de distância, o que as prepara perfeitamente para o ciclo da lavoura da mandioca. Ou ainda: os princípios da Física que abriga a casa de farinha com a termodinâmica ancestralmente precisa do forno para a neutralização da toxidade da farinha em processo. A Química disso… A Biologia envolvida na relação das pessoas com a pesca, seus respeitos ao Meio Ambiente, o entendimento profundo das águas, do chão, das folhas, do tempo de cada coisa. A prática pedagógica que engendra tudo isso… A interessante e legítima História da fundação e dos fundamentos daquele lugar vinculado pela palavra falada.


Imagino as histórias do Compadre D’Água sendo contadas enquanto a rede para o peixe de cada dia é tecida tramando ensinamentos para a manutenção das existências.

Ora, eu, que devo me dedicar à escuta do que circula na literatura de tradição oral, observei logo a sofisticação das narrativas das palavras ditas quando uma reza é feita sobre a espinhela de alguém. A ética, a estética de cada verso. Não há como não trazer cura! Imagino as histórias do Compadre D’Água sendo contadas enquanto a rede para o peixe de cada dia é tecida tramando ensinamentos para a manutenção das existências. Cada palavra proferida vai dando continuidade à comunidade… sempre tecendo redes de sobrevivência.


Encerramos o fim de semana de visita de campo com o compartilhamento de impressões sobre a primeira experiência de imersão. Cada um com as ponderações entre aqueles saberes e os saberes da academia, buscando respeitar os limites até mesmo do que consideramos como contribuições. Foi um momento de volta aos nossos ancestrais e de aprender com seus modos de vida que foram reinventados para atender à demanda do tempo e do espaço descendentes.



Niara observando os modos ancestrais de dizer-fazer farinha de mandioca. Foto: Shirley Pimentel

Esse é Pedro Miguel dos Anjos Ribeiro, ajudando, num movimento geracional, o vovô e a mamãe a plantar manivas. Foto: Ana Darck dos Anjos

Eu saí por último com outros colegas no domingo à tarde, só depois de bater um bom papo sob uma das árvores que sombreavam o terreiro da casa. Era sombra encantadora de gente do sertão. Uns jogavam empolgados o dominó, outros assavam peixe, outros riam das aventuras nas estradas da roça, outros tomavam nota. E todos conversavam, só a pequena Niara, como boa filha de pesquisadora negra, entretinha-se somente brincando ali com uns gravetos sentada na terra. Já era tarde. Niara não queria, por nada, ir embora. Eu também não…


Contrariada, votei trazendo abóboras e batatas como um prêmio de consolação por não poder ficar. Parece que adivinhava que a pandemia nos traria isolados por muito mais tempo e voltar lá seria mais difícil. A pressa de voltar, agora, é muito além do desejo de contribuir para a construção de um currículo escolar que fale de conhecimentos que pertencem à comunidade e que são fundamentais para entender o que há neles de científico, eu estou retomando a pesquisa para repensar o modo de vida que temos levando e o que poderíamos ter aprendido antes com comunidades chamadas tradicionais como essas para atravessar esses tempos pandêmicos, por exemplo, afinal, sobre resistências eles têm muito a nos ensinar. Nós, jovens, escutemos, aprendamos, então, com esses mais velhos em idade e/ou em conhecimento para sermos criativos como eles foram no sentido de pensar na continuidade de suas existências. Continuemos… vamos voltar logo ao campo. Espero que Niara também vá.



*Eumara Maciel dos Santos, secretária executiva do Campus de Barra da UFOB.



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