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  • Terezinha Oliveira Santos

Memórias II - Das seringas de vidro, injeção e gratidão


Ilustração: Aline Loures Quinteiro da Silva
 

Neste contexto pandêmico, atualizado pela crise econômica e conflitos imunológicos, observo as mãos que manejam as seringas descartáveis e essa mirada me transporta para Itapetinga-Ba, nos finais dos anos 60. Eu era criança e, vez ou outra, tinha crises de amigdalite para as quais, depois da ida ao médico, o “Benzetacil” era o antibiótico recomendado. Vale lembrar que nosso plano de saúde era representado por uma carteirinha do “Sasderba”. Após meu saudoso pai, S. Argemiro, (in memoriam), retirar uma autorização no Derba. Com o receituário em mãos, era necessário ir à “Farmácia de S. Walter /Farmácia Sudoeste” coletar os preços de cada medicamento; voltar àquele departamento, pegar uma guia, retornar à farmácia para retirar os produtos, entre eles, a famosa injeção, o “terror dos terrores”, a “treva das trevas”.

A próxima etapa era encontrar pela vizinhança uma pessoa que soubesse e pudesse aplicar a “inominável” numa criança: eu, a infeliz, cujo destino estava selado e dele não poderia escapar. Minha mãe, D. Mira, buscou ajuda pelas redondezas da nossa rua Itaberaba e voltou vitoriosa. Era o começo da noite quando aquele senhor adentrou minha casa. Na névoa das recordações, as imagens vêm sem as formas concretas, flashes, uma cena aqui e outra ali. Lembro-me da luz do candeeiro; lembro-me de uma embalagem de metal de onde foi retirada uma seringa de vidro; a água a ferver, à espera daquele objeto; o aguardar pelo seu resfriamento; a prosa dos meus pais com o ilustre convidado; meu tormento; o cheiro do álcool derramado na caixa de metal; o fósforo riscado; uma chama azul a se destacar sobre a mesa; a agulha esterilizada; o preparo da injeção; o rápido elevar da seringa para expulsar o ar contido no líquido branco. Aqui, as lembranças se apagam. A mente tem suas estratégias de proteção.

Em meio a essas lembranças, reflito sobre pessoas que são imprescindíveis e da maneira como pontuam a nossa vida, seja pelo consertar de um aparelho doméstico, por costurar uma roupa ao nosso gosto; pela sua arte culinária; pela sua habilidade artesã, enfim. Dentre essas pessoas, neste texto, quero prestar uma homenagem àquele senhor, cujo nome voltava à nossa casa, nas narrativas da minha mãe ao relatar fatos, especialmente, a luta e a dor dos pais quando veem os filhos a sofrer. Obrigada, Sr. Manoel Gusmão,(in memoriam). Agradeço e, nessa agência, homenageio a todas às mãos habilidosas que, de maneira direta ou indireta, com seus saberes técnicos e/ou ancestrais, têm colaborado no cuidado e na cura de corpos enfermos, fragilizados pelos diversos males a que estamos expostos.

Salvador, 31/01/2021

 

Terezinha Oliveira Santos, professora de língua portuguesa da UFOB/Barra.


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