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  • Eumara Maciel dos Santos

As curvaturas da existência

O TEMPO E A IDADE, VIDA E EXPERIÊNCIA. AS RUGAS SÃO MAPAS. A TRAJETÓRIA DA VIDA CONTADA EM FRAGMENTOS DE SENSIBILIDADE QUE REFAZ O EXISTIR.


Foto: João Rogério de Lima Azevedo Júnior


 

Os olhos apertados num esforço para enxergar, a boca imitando um sorriso de curva do rio, o pente assentado no sábio cocuruto, penteia os cabelos riscados de branco. As rugas são mapas, cada traço, uma história. Veja! Na testa há um livro nas linhas! Literatura viva.


Os botões da camisa cerrando o xadrez da estampa do gasto pano, dando uma delicada nobreza à imagem. Sim! Nobreza! É nobre a ancianidade, é nobre saber viver. Saber viver com a água para beber, o pão para nutrir e memória para continuar.


É nobre ter os olhos para espreitar a onça que arrudia a serra. É importante também ter sebo nas canelas se a pintada aparecer!!! Ter nos braços a força suficiente para tratar a terra que concebe o alimento. Para quê anéis de ouro se nos dedos só precisam da habilidade para arear e dispor as panelas no jirau ou para debulhar as contas do antigo rosário?


Nos ouvidos a oferta da leitura do que diz o vento; se vem dos lados do Buriti ou das bandas da Barra. Se prenuncia chuva ou só a empoeirada desesperança de um tempo ruim... e saber as estratégias para passar pelas duas situações.


Nobreza é ter no nariz a oferta da mensura do ponto do chá para a cura do outro. Ou para saber se o café para despertar à vida está no ponto de coar.


É nobre ter na boca a reza para o santo que acompanha todos os anos que traz no corpo; protegendo-o, livrando do mal, amém. Ou a voz que dissemina o ensinamento para não entregá-lo à morte.


O corpo e a alma estão em harmonia; é este o patamar de nobreza. Do que mais precisa? Se, postada no alpendre de casa, basta-se a si mesma? É bela a ossatura da velhice. Mas, ao invés de nós nos curvarmos ao ancião e com ele aprender, ele é quem se curva ao sabor dos anos, como quem cumprimenta ao tempo numa postura que revela um ato de nobreza. Eis o momento da absoluta completude humana: saudar-se com respeito, curvando-se à própria existência.



 

Eumara Maciel dos Santos, secretária executiva do Centro Multidisciplinar de Barra (UFOB).



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